UNIÃO DE PRAGAS GERA PERDA DE R$ 5 BILHÕES EM CANAVIAIS

Em pesquisa inédita, cientistas relatam como fungo que causa a podridão vermelha ‘manipula’ o inseto da broca-da-cana para se disseminar nas lavouras

Um grupo de pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, descobriu que o fungo que causa a doença da podridão vermelha na cana “manipula” tanto a planta da cana como outra praga, o inseto da broca-da-cana, para se disseminar nas lavouras. A descoberta derruba uma visão de décadas, de que o fungo apenas se aproveitaria dos danos provocados pela broca para infestar canaviais, e pode ter desdobramentos sobre o manejo para o controle das doenças, que hoje provocam perdas anuais de R$ 5 bilhões ao setor.

O artigo com os resultados da pesquisa foi publicado neste domingo no “The ISME Journal”, do grupo Nature. Assinam o trabalho dez pesquisadores, que receberam apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Causada pelo fungo Fusarium verticillioides, a podridão vermelha reduz a sacarose na cana. Com frequência, as plantas adoecem quando também há infestação do inseto da broca-da-cana, a maior praga da cultura que prejudica a produtividade agrícola e o teor de sacarose. Juntas, elas podem tirar entre 50% a 70% da sacarose nos colmos.Embora a associação entre as duas doenças seja observada há décadas, acreditava-se que era o inseto o principal elemento na disseminação do fungo nas lavouras.

A pesquisa derrubou essa teoria e mostrou que o protagonista é, na verdade, o fungo. Quando infecta uma planta, o Fusarium verticillioides induz a cana a produzir substâncias que atraem mariposas da broca que ainda estão saudáveis. Uma vez atraídas para a cana infectada, as mariposas contraem o fungo. O que acontece em seguida também surpreende: uma vez infectados, os insetos passam a preferir a cana sadia - e, assim, eles levam o fungo a novas plantas.

Os pesquisadores também fizeram outra descoberta: a de que as fêmeas dos insetos da broca, quando infectadas, transmitem o fungo para os ovos que botam, que por sua vez infectam as lagartas que nascem. Dessa forma, quando uma fêmea infectada bota um ovo em uma cana sadia, são as lagartas descendentes que introduzem o fungo na planta.

“Mostramos que uma base importante do processo é a capacidade do fungo de passar para geração seguinte [do inseto da broca], o que é a transferência vertical. É um evento bem raro na natureza”, diz o professor Marcio de Castro Silva Filho, do Laboratório de Biologia Molecular de Plantas do Departamento de Genética da Esalq.

A descoberta de que o fungo “viaja” com a broca também é inovadora. “Foi um grande desafio científico porque não há relato anterior de que fungos são transmitidos por vetores”, afirma o professor José Maurício Simões Bento, do Laboratório de Ecologia Química e Comportamento de Insetos do Departamento de Entomologia e Acarologia da Esalq.

Para Simões Bento, a pesquisa indica a importância do controle biológico para manter baixos níveis populacionais da praga. A descoberta também pode orientar pesquisas de melhoramento genético das cultivares de cana.

Silva Filho afirma que a pesquisa também indica que pode haver vantagens no uso de armadilhas para os insetos. “Pode se colocar uma armadilha com compostos voláteis associados a um tipo de cola. O inseto, atraído pelo composto, ao invés de ir para a planta, vai para a armadilha”, explica.

O trabalho pode ser “um divisor de águas para a cana”, acreditam os pesquisadores. “Esse tipo de integração pode estar ocorrendo também em outras culturas”, diz Silva Filho. “No Brasil, estamos fazendo ciência de alto nível, não só em geração de conhecimento novo, mas também com grande potencial de aplicação. Investimento em ciência e tecnologia é importante”, defende Simões Bento.

Fonte: Valor Econômico

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