QUEDA DO PETRÓLEO É UMA AMEAÇA PARA A PRODUÇÃO DE ETANOL DE MILHO NO BRASIL

GASOLINA BARATA PODE ACABAR COM AS MARGENS DE LUCRO DAS USINAS QUE PRODUZEM O RENOVÁVEL COM O GRÃO
Ela resistiu a uma espiral descendente da moeda, a um mal-estar econômico, a um salto nos custos das matérias-primas e a agitações políticas. Agora, uma das indústrias em expansão no Brasil finalmente encontrou um inimigo que pode derrubá-la: a queda do petróleo.

A enorme queda dos preços no mercado internacional de petróleo está provocando reverberações sem precedentes em commodities e economias. No Brasil, os produtores de etanol de milho se destacam por concentrarem as dores.

Isso mostra como o desenrolar do mercado de petróleo está ameaçando a produção de energia limpa e renovável: enquanto a gasolina cai, o etanol está sob pressão.

No estado de Goiás, onde um terço das plantas de milho do país estão localizadas, as margens para o biocombustível feito à base de grãos já se tornaram negativas, disse o analista do INTL FCStone, Matheus Costa.

Se os preços mais baixos da energia forem sustentados, as coisas podem piorar. Para o presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), até 60% dos projetos de expansão planejados podem ser descartados.

É uma reviravolta acentuada nas perspectivas. O dinheiro vinha inundando o setor e empresas como a Cargill trabalhavam para aumentar a capacidade em meio à demanda crescente pelo combustível renovável.

No início deste ano, a FCStone previu que a produção de etanol de milho na safra 2020/21 saltaria para 2,5 bilhões de litros. Isso seria o equivalente a um aumento de mais de 16 vezes em relação aos 150 milhões de litros produzidos há apenas cinco anos.

ALTA DO MILHO
O colapso do petróleo ocorre em um momento em que os custos do milho para as empresas que transformam o grão em biocombustível já estavam subindo. Mas os preços relativamente altos para venda permitiam que as usinas permanecessem lucrativas, mesmo com uma produção 50% maior este ano em relação à temporada passada. Agora isso foi questionado.

“A alta no preço do milho, combinada com a queda do petróleo, realmente nos preocupa quanto à possibilidade de uma paralisação nos investimentos”, disse Nolasco em uma conferência do setor na semana passada, em São Paulo.

Ele relata que as usinas que utilizam milho começaram a expandir a produção quando os preços domésticos do grão eram de cerca de R$ 12 por saca de 60 kg. Mas o crescimento da produção pecuária aumentou a demanda por grãos, um fator que se somou à maior produção do biocombustível e às fortes exportações do milho, elevando os custos para os processadores para cerca de R$ 26/saca nos últimos meses.

Assim, mesmo com a esperada queda no preço do etanol, é provável que o milho permaneça em alta demanda por causa da produção de proteínas. De acordo com Nolasco, isso pode levar os custos de milho para as usinas a cerca de R$ 35/saca no curto prazo, apertando ainda mais a margem das usinas do biocombustível.

PROJETOS EM DIFICULDADE
Segundo a Unem, o Brasil possui cerca de 15 usinas de etanol de milho em operação, além de três em fase pré-operacional e 23 em processo de construção ou estágios iniciais de desenvolvimento. Para Nolasco, se os preços do petróleo permanecerem próximos aos níveis atuais, é provável que apenas 40% dos projetos continuem.

A fabricante de biocombustíveis São Martinho é uma das empresas preparadas para aumentar sua produção de etanol, passando a utilizar também o milho. A avaliação da empresa foi rebaixada recentemente pelo Bradesco BBI, partindo do princípio de que o projeto para expansão da produção em Goiás não será aprovado pelo conselho de administração.

Embora a São Martinho possa acabar avançando com o projeto a longo prazo, o diretor financeiro do grupo, Felipe Vicchiato, acredita em uma demora na aprovação. “A decisão final pode ser adiada por um ou dois meses – até que essa turbulência se acalme”, disse.

Por Fabiana Batista e Tatiana Freitas


Fonte: Bloomberg & Nova Cana

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